quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

CONSTRUINDO UMA TRAGÉDIA!


Tanque do Povo - Atual Mercadão
Na década de 70, do século XX, Itabaiana era uma pequena cidade com uma pequena população e uma pequena área urbana. Ruas estreitas, metade delas tinha pavimentação à paralelepípedo, as praças não eram pavimentas (algumas arborizadas), as casas tinham quintais grandes, muitas com cisternas e com muitas árvores frutíferas. Existiam casas com grandes quintais até mesmo no centro comercial da cidade. Como exemplo posso citar a Casa comercial Café Novo Horizonte que ficava bem em frente ao Largo Santo Antônio. Existiam dezenas de lagoas, nesta mesma Área Urbana, e a mais conhecida delas ficava justamente no centro comercial da cidade: O Tanque do Povo.

A Área Urbana era um tanto irregular. Pelo lado Nordeste, bem próximo ao centro da cidade, praça principal ou Praça da Matriz (Praça Fausto Cardoso), distante apenas três quarteirões se chegava a Área Rural (Sítio da Família Barbosa). Mas pelo lado oeste e norte, da Área Urbana, se caminhava vários quarteirões para se sair da cidade e chegar a Área Rural.

Com o passar do tempo à cidade foi crescendo, imóveis foram se valorizando e os terrenos passaram a ter grande valor. Consequentemente as pessoas passaram a construir nos quintais, os terrenos baldios foram ocupados, as lagoas foram aterradas e onde existiam pequenos riachos as margens foram aterradas e colocados bueiro nos locais das calhas por onde deveriam passar á agua pluvial (água da chuva)..

Desrespeitar as regras físicas da natureza, principalmente o Ciclo Hidrológico, trás consequências desagradáveis, tais como:

Cobertura Vegetal

A cobertura Vegetal funciona como um tapete protetor evitando que a chuva caia diretamente no solo. Parte da água que cai fica temporariamente acumulada nas folhas dessas árvores. Os solos protegidos pelo Tapete Verde (as árvores) são geralmente de fácil infiltração e permite que parte da água da chuva fique reservada no subsolo. Chuvas de pequeno volume sequer chega a formar correnteza devido a água ficar acumulado nas folhagens das árvores e no subsolo. Com o crescimento da cidade os quintais foram ocupados com novas construções, devido a valorização dos terrenos urbanos, e consequentemente a cidade foi ficando cada vez mais impermeabilizada

As pequenas lagoas

As lagoas que existiam na cidade eram na realidade Lagoas de Contenção! Embora os moradores não percebessem, elas funcionavam com essa finalidade. Dependendo se a chuva fosse mais forte que o normal, as primeiras correntezas tinha destino final nessas lagoas e caso a chuvas fossem mais fortes que o normal se levava algum tempo até as águas da chuva formassem correnteza preenchendo os córregos e riachos.

Cruzamento em frente ao Estádio Presidente Médici. Na década de 80 esse cruzamento ainda não era pavimentado e na esquina em frente podia-se ver o riacho que atravessava as duas avenidas por um bueiro. Nesta década construíram um canal dando sequência ao bueiro e justamente nesta década ocorreu uma dessas chuvas fora do padrão. Como o canal não deu conta, as águas entravam pela frente das casas e saiam pelos fundos e é bom deixar claro que ainda não existia a casa da esquina.
Neste local era onde ficava o famoso Tanque do Povo. O canal que atravessa as avenidas na foto anterior desaguava no tanque do povo e depois levava (ainda leva) as águas, por baixo das casa e das ruas, até o Açude da Macela.
As praças e os terrenos baldios

As praças existentes, terrenos baldios e muitos quintais não tinham, na maioria das vezes, cobertura vegetal, mas também não tinham nenhum tipo de pavimentação. Mesmo as ruas da cidade, somente metade era pavimentada. Com o decorrer do tempo praticamente tudo foi pavimentado, algumas ruas com paralelepípedos e outras com pavimentação asfáltica, tornando a superfície impermeável e dificultando a infiltração da água no solo.

Terreno no fundo da antiga rodoviária e ao lado do forum. Neste terreno existia um córrego (ou riacho) com mais ou menos um metro de largura com um metro de profundidade (hoje totalmente aterrado).
Os córregos e riachos

Os pequenos riachos tiveram suas calhas transformadas em canais por uso de bueiros ou mesmo foram construídos estruturas de concreto. Mas as áreas adjacentes desses córregos foram aterradas e ficaram somente justamente os canais substituindo os córregos. Além de estreitarem os córregos, por onde deveriam (ou deverão ) passar á água pluvial, isso faz a água se espalhar para os terrenos mais próximos, fizeram com que a água se locomovessem com maior velocidade.

Essa é a entrada principal do Colégio Estadual Murilo Braga(CEMB). Neste local existe um bueiro que não dá conta das águas nas chuvas de verão (trovoadas) e em se tratando de chuvas anormais é um verdadeiro caos. Cansei de ter de entrar no colégio molhando os sapatos com as meias! As águas ia por um córrego alimentar um riacho que desaguava em duas lagoas em frente ao atual Hospital Dr. Pedro Garcia.
Esta rua em frente tinha um riacho que a atravessava e caia em duas lagoas e só depois passava por baixo da Avenida Dr. Luiz Magalhães (este local fica em frente ao atual hospital Dr. Pedro Garcia). Já naquela época ocorreu um chuva fora dos padrões (início da década de 80) onde as lagoas transbordaram e as águas passou por cima da avenida! Hoje o riacho está devidamente escondido e foi desviado para bueiros que estão sob a rua em frente as casa, mas antigamente as águas passava por dentro das lagoas no local onde estão as casas.
Essa esquina fica oposta a esquina do CSU. Antigamente existia um riacho que atravessa o terreno que hoje é ocupado pela rua esquerda, o terreno cercado, a rua a direita e somente depois passava por um bueiro atravessando a Av. Dr. Luiz Magalhães. No local terreno cercado existia uma pequena lagoa. Na rua a esquerda ocorre alagamentos mesmo nas chamadas chuvas normais! Na década de 80 (século XX) houve uma grande chuva onde a água invadiu o Armazém e depósito de gás Ubaldo (os botijões de gás ficaram flutuando na água).

A Pavimentação asfáltica

Recentemente a cidade recebeu pavimentação asfáltica em quase totalidade das ruas. Até mesmo as ruas que já tinham pavimentação a paralelepípedo foram coberta com pavimentação asfáltica e aí mais um agravante. Embora os paralelepípedos tornem o terreno impermeável ele não aquece o ar igualmente a pavimentação asfáltica. O ar aquecido torna a cidade desconfortável e tem maior capacidade de manter um maior volume de água suspensa em forma de vapor e regiões aquecidos geralmente se tornam área convergente para chuvas torrenciais!


Para onde vai a água da chuva?

Primeiramente ela ocupa as folhas das árvores. Caso a chuva continue, a água ira ser depositada no subsolo por infiltração e somente depois a água irá se deslocar pela superfície até as lagoas mais próximas. O deslocamento da água poderá ser mais veloz ou não dependendo da pavimentação e estreitamento dos canais pluviais. Se chuva persistir, a água irá vazar, nas lagoas, preenchendo os córregos e riachos. Isso em situação normal. Caso não existam as árvores, as primeiras águas que deveriam ficar nas folhas e subsolo já irão formar correnteza em direção as lagoas, caso não existam as lagoas a águas irá aumentar rapidamente o volume dos córregos e se as calhas dos córregos não forem suficientes para absorver a quantidade das águas, a enchente é inevitável.

Juntando a águas que deveria ficar nas árvores, as que deveriam ficar no subsolo e com as águas que deveriam ficar contidas nas lagoas, tem-se o volume das águas, nestes córregos, aumentado em várias vezes e em uma duração de tempo menor que em condições normais. Vale lembrar que temos o agravante que esse volume de água tem menos espaço para se deslocar pela superfície! Em chuvas fora dos padrões normais a destruição será inevitável e com potencial aumentado várias vezes!

OBSERVAÇÃO: Foram mostrados somente algumas fotos como exemplos, mas o padrão de ocupação urbana ocorre por toda a cidade e em todos os locais onde existiam áreas arborizadas, córregos, riachos e lagoas.

Antônio Carlos Vieira
Licenciatura Plena - Geografia (UFS)


Crédito da fotos: Tanque do Povo (Grupo Itabaiana Grande - Facebook) e as demais foram conseguidas do Google Maps

Textos relacionados:
Os Cebolas, os tanques e as lagoas - Antõnio Carlos Vieira
A LAGOA DO FORNO (A Mossaranha) - José de Almeida Bispo

domingo, 11 de janeiro de 2015

OS NOMES E APELIDOS DAS COISAS PÚBLICAS!

É comum se colocar nomes nas coisas públicas: ruas, avenidas, escolas, bairros, povoados, etc. No decorre dos tempos esses nomes são mudados de acordo com o interesse popular ou mesmo de interesse (políticos) da Administração Pública. 

A Administração Pública nomeia os logradouros públicos homenageando pessoas consideradas importantes e santos (geralmente da Igreja Católica). O inconveniente é que nem sempre essas homenagens representam a vontade popular. É comum as pessoas não saberem por que os povoados, ruas e praças onde moram tem nome de pessoas que nunca ouviram falar!!! Isso é decorrente do Poder Público batizar esses logradouros a partir de homenagens prestadas pelos e por interesses políticos. Em contra-partida, as pessoas costumam colocar nomes nos locais a partir de fatos da convivência nesses locais e muitas vezes acabam colocando nomes estranhos, tais como: Povoado Saco Torto, Povoado Pé do Veado, Rua do Ovo, Rua do Cacete Armado, Bairro Eucalipto, Bairro Lata Velha, etc.

Um caso interessante de se colocar apelidos foi o que outrora era o chamado Campo de Aviação! Nunca se tornou uma pista de pouso de aviões! Com o decorrer do tempo as pessoas passaram a jogar lixo no local e em decorrência as pessoas passaram a chamar o local de “Lata Velha”. Pouco tempo depois o terreno foi dividido em lotes e doado para diversas pessoas construírem suas residências. Durante a ocupação dos lotes, e transformação da área em Bairro, foi instalado ao lado uma torre de transmissão da primeira rádio da cidade, consequentemente muitas pessoas passaram a chamar o local de “Bairro da Torre”. 

O que deveria ter sido um campo de pouso de aviões se tornou um terreno baldio cheios de jurubebas que a população passou a utilizar como depósito de lixo. Posteriormente a Administração Pública doou lotes de terras para alguns cidadãos construírem residências e hoje é oficialmente o Bairro Miguel Teles de Mendonça.

As pessoas ocuparam o terreno sem estrutura básica e as vias públicas (ruas) se tornaram verdadeiros lamaçal!!! Em decorrência alguns moradores se dirigiam a prefeitura para solicitar melhorias que resolvessem o problema.Quando chegavam na prefeitura eram mandadas que fossem até a casa de Seu Francisco (Líder Político da época) efetuar as devidas solicitações. 

As primeiras pessoas que se dirigiram a casa do Seu Francisco foram convidadas a entrarem e questionadas do que se tratava. No qual ele relatavam o problema: que a rua onde morava estava com muita lama e solicitavam, ao líder político, que mandasse alguns homens da prefeitura para que desse um jeito. O problema quando foi quando questionadas onde moravam: alguns respondiam que moravam no “Bairro da Torre” e outros respondiam que moravam na “Lata Velha”. Como resposta o Seu Francisco mandava que a pessoas voltassem para suas casas e aprendessem o nome correto do bairro, onde moravam, para que depois viessem fazerem as devidas reclamações!!!

Eles não eram atendidas por que Seu Francisco não gostava que chamassem “Bairro da Torre” por que a rádio pertencia aos adversários políticos e quando chamavam de “Lata Veia” o problema era maior ainda, já que o nome do Bairro é Miguel Teles de Mendonça, o pai de Seu Francisco e por esso motivo chamado de Chico de Miguel.

Antônio Carlos Vieira
Licenciatura Plena - Geografia (UFS)
http://carlos-geografia.blogspot.com.br

domingo, 4 de janeiro de 2015

A LAGOA DO FORNO (A Mossaranha)

Por José de Almeida Bispo


O aventureiro inglês Richard Burton disse que ela fica em cima da serra de Itabaiana e tem nove quilômetros por três de comprido. Por ouvir dizer. Errou feio. Quanto ao fato de ficar em cima da serra de Itabaiana, contudo ela não errou. É preciso levar em conta que os primeiros europeus que na região chegaram entendiam todo o domo e não apenas a serra mais alta, como de Itabaiana. Mas o que confere magia à pequena lagoa é a lenda de sua origem, captada no imaginário popular na segunda metade do século XIX por Armindo Guaraná, e razoavelmente difundida por José Sebrão de Carvalho, o sobrinho.

A Lagoa do Forno, como hoje conhecida fica entre os riachos dos Tapuias e da Taboca, dela também se originado um terceiro, o riacho do Sangradouro. Foi por séculos ponto de parada dos viajantes no trânsito entre Itabaiana e a antiga capital de Sergipe, São Cristóvão, cuja estrada real lhe passa às margens, justo do lado onde começa o supra citado riacho do Sangradouro. Atualmente, é mais facilmente atingida pela estrada de rodagem para o povoado Ribeira, que também lhe margeia a uma distância pequena, aproximadamente no quilômetro 1,5, a partir da BR-235. Recentemente foi foco de preocupação e querelas partidárias por tentativa de apropriação por parte de particulares e consequente aterramento, um crime ambiental, pois, fato que foi confundido com os trabalhos de asfaltamento da antiga estrada real São Cristóvão-Itabaiana, em quase toda a sua extensão, ora em andamento.

A lenda da Mbuçarãe, toscamente chamada pelo colonizador europeu de Mossaranha é uma daquelas belíssimas trazidas da cultura indígena. Conta-se que, havia na região um casal de índios em que o valente guerreiro era extremamente ciumento, e sua amada, bela, na mesma proporção. Os espíritos maus ocuparam a cabeça do valente guerreiro por algum tempo lhe gerando um ciúme doentio. Certo dia, doente de ciúmes descobriu que sua amada tinha ido se banhar nas nascentes do rio das Pedras e lhe foi ao encontro. Por infelicidade a encontrou conversando com o dito índio de quem mais tinha ciúmes com ela e, tomado de furor, matou a ambos. O local da tragédia ficou conhecido como a Tocaia, que na língua indígena se Mondé, corrompido pelo europeu para Mundés, onde hoje é conhecido como Rio das Pedras, um próspero povoado às margens da BR-235. Após cometer seu ato tresloucado, o grande guerreiro doente de ciúmes caiu em depressão e passou a chorar até as morte. Chorou tão copiosamente que suas lágrimas geraram uma lagoa que tomou o nome de sua bela e infeliz amada: Mbuçarãe. Que hoje é a conhecida Lagoa do Forno."