segunda-feira, 2 de setembro de 2013

AS FEIRAS E OS CEBOLAS

Na cidade Itabaiana(SE), onde nasci, grande parte da população eram, e ainda são, feirantes . Só que os feirantes da minha terra tinham e tem o hábito de venderem não somente na feira da cidade onde residem (uma na quarta-feira e outra no sábado), mas nas cidades próximas, inclusive na capital do Estado (Aracaju) e praticamente ficam ocupados todos os dias da semanas com essa atividade. É o ganha pão de milhares de pessoas.

Feiras Frequentadas
Entre as feiras mais importantes e mais frequentadas, que os  ceboleiros,  no Estado de Sergipe, costumam frequentar, nessas andanças comerciais, podemos citar: Itabaiana (a maior do Estado) realizadas as quartas e quintas-feiras, Carira é realizada todas as segundas-feiras, Areia Branca é realizadas todos os domingos, Nossa Senhora da Glória é realizada todos os sábados e Aracaju (feiras realizadas nos bairros durante vários dias da semana), etc. Eu frequentava três dessas feiras, mas entre todas essas feiras, que eu frequentava, a que considerei mais interessante, diferente de todas, foi a feira da Cidade de Carira.
Final de feira no meio da semana  (uma quarta-feira).
Década de 70 do século XX.
Foto conseguida no grupo Facebook Itabaiana Grande

A feira da Cidade de Carira(SE)
A feira ficava na praça da matriz e essa característica era e é um caso raro no Estado. Interessante que antigamente, mais de cem anos atrás, a feira de Itabaiana era realizada na Praça da Matriz e hoje não existe sequer vestígio da atividade e no no passado existia até um mercado (Mercado dos Pebas) na referida praça.

Mercado do Pebas, Praça Matriz de Itabaiana.
Segunda década século XX.
Foto conseguida no grupo Facebook Itabaiana Grande
Na década de 70/80 do século vinte, acredito que praticamante 30% dos vendedores desta feira eram provenientes de Itabaiana e os clientes eram em sua grande parte vindo dos municípios da Bahia que fazem fronteira com Sergipe: Coronel João Sá, Paripiranga, Jeremoabo e Serra Negra.
Foto de autor desconhecido. Tirada antes da década de 60.
No final da década de 60 já existia calçamento a paralelepípedo
no entorno da feira, mas onde ficava as barracas ainda era de terra.
Transportes utilizados
Geralmente eu utilizava a Marinete (ônibus) que pertencia ao um senhor chamado de Cosme. Eu achava interessante que esse motorista residia em Ribeirópolis(SE), ia até Itabaiana, pegava os passageiros e depois seguia viagem para Carira. Muitas das poltronas eram reservadas aos passageiros cativos. As vezes eu perdia o horário e seguia viagem de Pau-de-Arara ou em uma das marinetes da Viação Senhor Bomfim, mas o meio de transporte mais utilizado, pelos feirantes e clientes, era o Pau-de-arara.
Transporte mais utilizado na década de 70 e 80 do século XX.
Eram utilizados pelos feirantes e respectivos clientes.
As chamadas marinetes da década de 70-século XX

Itinerário
A viagem tinha inicio na praça Santa Cruz (apelidada de Praça dos Táxis) em Itabaiana, entrava pela rua São Paulo, subia pela Avenida Ontonieo Dórea, passava em frente ao Posto, depois seguia por uma estrada de barro batido, passava em frente ao antigo matadouro, depois pegava a BR-235, passava pela cidade de Frei Paulo e seguia viagem até chegar a cidade de Carira. Chamar a atenção em relação a BR-235, que na época só era asfaltada até o povoado Terra Dura, em Itabaiana, sendo todo o restante, até entrar no Estado da Bahia, de estrada de terra (estrada de barro batido).
Inauguração do matadouro de Itabaiana em 1940
Foto conseguida no grupo Facebook Itabaiana Grande
Início da viagem
Todas as segundas-feiras, sempre em torno das seis da manhã, os feirantes estavam sempre presentes para a referida viagem, mas nem todos os passageiros eram feirantes e muita gente aproveitava a existência desse transporte alternativo em decorrência da pouca oferta das marinetes por parte da empresa Viação Senhor do Bomfim.

Era normal os passageiros chegarem muito antes do transporte e nesse tempo de espera sempre ocorria um fato interessante: tinha um senhor que passava sempre embriagado, cumprimentava a todos (mais educado do que muitos dos meus alunos) e sempre tocando o seu habitual pífano, embora fosse chamado de Lauzinho da Gaita!! Esse senhor tocava o pífano com muita habilidade e o mais interessante é que as vezes soprava com a boca e as vezes soprava com o nariz!!!

A penitência
Durante a viagem tinha dois locais que sempre deixaram suas marcas inesquecíveis. Uma delas era quando se passava em frente ao antigo matadouro de Itabaiana (hoje não existe mais) e a outra era quando se aproximava, subindo a ladeira, da entrada de Frei Paulo, passando em frente ao antigo alambique (hoje desativado) . Nesses dois locais o malcheiro inalado era sufocante. Interessante que os moradores das proximidades diziam que não existia o tal mal cheiro e que não o sentiam!

O bota pra lá
Era comum nesta viagens, de pau-de-arara, aparecer um ou outro passageiro que gostava de ficar gritando com o motorista: bota pra lá, bota pra lá. Claro, a ideia da pessoa era influenciar o motorista a correr mais. Geralmente os motoristas não corriam e não davam a menor importância para essas pessoas. Só que em uma ocasião, um desses motoristas resolveu dá o troco. O sujeito ficava bota pra lá, bota pra lá. Em uma dessas paradas, viagem para Carira, próximo a Cidade de Frei Paulo, na hora do motorista retornar ao normal da viagem, ele simplesmente começou a andar de ré! Foi quando as pessoas acharam estranho e começara a perguntar: o que houve? De prontidão o motorista respondeu: como agora estou indo de ré, manda o sujeito aí ficar gritando bota pra lá? Não precisa dizer que o pessoal caiu de gozação com o sujeito que estava perturbando.


O serviço de alto-falantes
Em duas destas feiras existiam serviços de alto-falantes (eles se diziam rádios), que eram: feira de Itabaiana e a feira de Carira. Na feira de Itabaiana o serviço era pertencente a prefeitura e em Carira o serviço pertencia a particulares.

Em Itabaiana, os autos falantes eram posicionados um nos dos cantos da feita (um no teto de um dos Mercados de Carne Verde) e o outro, alto-falante, ficava no canto oposto da feira em cima de uma das lojas. Em Carira o serviço de alto-falantes ficava em um bar na parte da pedra de feira e era um serviço pra lá de chato. O responsável de apresentar as notícias e fazer a propaganda tinha uma fala pra lá de chata que até os amigos passavam tirando graça do mesmo. Em Carira ainda tinha a particularidade que o serviço só começava depois de encerrada a missa da manhã, geralmente as noves horas.

Certa vez, na feira de Itabaiana, aconteceu um caso pra la de inusitado,o apresentador para a música e saiu com a seguinte notícia: senhoras e senhores daqui alguns instantes iremos divulgar a relação dos devedores da Lojas Guanabara do Eliseu Oliveira, o Arrojado. Em questão de cinco minutos a feira estava vazia!!! É que os devedores saíram correndo para quitar a dívida, evitando assim que o nome fosse divulgado em público como um mal devedor.


A Corrente - Fiscalização Estadual
No itinerário era obrigatório os carros de cargas pararem no Posto Fiscal (na época chamada corrente). Os carros eram revistado e era exigido as Notas Fiscais das mercadorias. Essas exigências não eram rígida em relação aos feirantes. Só que ouve um período que os fiscais passaram a exigir notas fiscais dos feirantes e das pessoas que iam fazer feiras!

A exigência era tão grande que até uma dúzia de ovos de posse dos passageiros ou feirantes já era motivo de se impor uma multa. Só que nem todos concordavam com essa prática e em uma dessas ocasiões, em se querer multar, uma das passageira que portava duas dúzias de ovos de galinhas acabou em confusão e tentativa de prisão da portadora. A donas dos ovos se negou a pagar impostos, sobre ovos, e na impossibilidade de levá-los para vender na feira, quebrou todos eles, inclusive atirou alguns no fiscal. A alegação dos fiscais era apreensão de mercadoria contrabandeadas e a dona dos ovos gritava que as galinhas esqueceram da dá (emitirem) as Notas Fiscais!

Neta mesma ocasião ocorreu mais uma confusão, mas não com as mercadorias que estavam sendo transportadas para venda ou compra nas feiras. Nesta mesma hora, alguns vaqueiros da região estavam tangendo (levando) o gado de uma fazenda da cidade de Frei Paulo para uma fazenda na Cidade de Itabaiana e cujo proprietários do gado era também proprietários das duas fazendas. Chamar a atenção, naquela época, no período das secas, era comum os fazendeiros transportarem o gado das fazendas localizadas nas regiões de seca para fazendas em condições de alimentar o gado.

Os ficais da corrente (posto fiscal) resolveram parar o gado e exigiram Nota Fiscal do gado ou teriam que pagar multa! Quando o capataz tentou explicar o motivo do transporte do gado foi impedido pelo fiscal que respondeu gritando que sem a Nota Fiscal o gado não passaria e tentou fazer o gado recuar dando pauladas em uma das vacas, que pra azar do fiscal, estava parida! O capataz do gado fez o fiscal se afastar do gado empurrando ele com o cavalo e apontou com e dedo pra ele dizendo: vou passar o gado para a fazenda em Itabaiana como me foi mandado e se a vaca perder o bezerro eu volto aqui e faço você pagar a vaca e a novilha. Olhou para os outros vaqueiros e gritou mandando levar o gado.

Na ocasião tinha dois soldados militares, mas não se intrometeram no ocorrido, até por que poderiam provocar uma pequena guerra e sem falar no fato que o proprietário do gado e das fazendas era de conhecimento de todos e o problema foi resolvido posteriormente.

No dia seguinte, as rádios da capital noticiava o acontecido e os fiscais foram orientados para usar o bom senso, inclusive passaram a orientar os fazendeiros irem no fisco pedirem permissão para o transporte do gado de uma fazendo para outra localizadas em cidades diferentes.


A metamorfose
Durante essa viagens, de pau-de-arara, para a Feira de Carira, passava por uma metamorfose fantástica: eu saia de casa, iniciava a viagem, como “cara pálida” e voltava, retornava da viagem, como um “pele vermelha”. O mais interessante é que, nessa metamorfose, não era só a pele que mudava de cor, mas a pele, o cabelo, a roupa e o tênis! Lembrar que nessa época a estrada só era asfaltada até o povoado de Terra Dura, em Itabaiana, e a praça da feira em Carira não era pavimentada.

Antônio Carlos Vieira
Licenciatura Plena - Geografia (UFS)

2 comentários:

  1. Achei muito oportunas as informações contidas no texto.Gostei muito principalmente do anuncio dos devedores das Lojas Guanabara em plena feira.kkkkkk Tem uns dois meses que fui na feira de Carira e fiquei admirada pelo tamanho,mercadorias e a força e entusiasmo dos feirantes. Quando criança, frequentei muito a feira de Ribeirópolis, pois meu avô tinha loja lá.Era uma bela feira.Mas igual a de Itabaiana não tem.Parabéns professor, belo tema,discorrido com perfeição.

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