sexta-feira, 14 de junho de 2013

O SINCRETISMO RELIGIOSO

Quando era garoto morava em Itabaiana e em Itabaiana a forma das ruas obedecem sempre a um quadrado. 

Eu morava em uma esquina e de frente passava uma rua que só tinha casa de um lado e a rua que ficava ao lado da casa (Rua Padre Felismino) , terminava justamente na esquina em que eu morava (era o chamado final de rua). 

Do outro lado da rua,em frente a minha casa, tinha um chamado campo de peladas (pequeno campo de futebol soçaite ). De frente as quadra vizinha do lado direito, em direção ao centro da cidade, tinha uma praça (na época Hunaldo Cardoso). Alias, o campo de pelada que fica em frente a minha casa, também era uma praça que mudava de nomes com o passar dos tempos e nunca deixava de ser um campo de pelada. 

A continuação da rua ao lado da minha casa, atravessando o campo (ou praça) em frente a minha casa, ia dá em uma estrada em direção a Zona Rual, com sítios de um lado e do outro (ia sair no Povoado Lagamar e Batula). 

Neste pequeno campo de futebol e na praça vizinha era comum se jogar lixo e então a prefeitura resolveu limpar o terreno. Mandou passar o trator e toda a terra retirada com o lixo foi depositada no lado do oposto campo da casa onde eu morava. O certo seria retirar o lixo e levar em caminhões!!! 

Quem passava pela rua ao lado do campo, via a praça ou campo todo limpo e não imagina que por debaixo do morro que foi depositado no outro lado, era lixo coberto pela areia retirada da própria praça. 

Depois desse fato, os moradores da localidade passaram a jogar o lixo escondidos por detrás desse morro, que foi criado na limpeza da dita praça. Assim, quem passava pela rua não via o lixo por detrás do morro e por detrás deste morro ficavam dois sítios. 

O lixo que se jogava antes da limpeza era bolsa plásticas, sapatos velhos, sofá velho, etc. Só lixo sólido. 

Depois desta limpeza, o tipo de lixo mudou. As sapatarias locais passaram jogar a sobra dos couros dos sapatos e o restaurante (na época só tinha um na cidade) passou a jogar o restante dos temperos e as penas das galinhas detrás desse morro. 

O interessante é que o restaurante, nesta época, comprava as galinhas vivas e ele mesmo matava e tratava essas galinhas. 

As pessoas para irem em direção a zona Rural ou vim da zona rual, em direção a cidade, eram obrigadas a passar na estrada que ficava ao lado do campo e deste morro, e quando adentrava mais adiante, uns cem metros, a estrada fica entre sítios. 

A estrada era estreita e irregular. Em alguns lugares chega a ter cinco metros de largura (dava para passar dois carros) e em outros só dava pra passar somente um carro. 

O que separava a estrada dos sítios era o que chamávamos de valado. Valado é uma cerca feita com postes em ficados no chão, com dois ou três fios de arame farpado (arame com grampos para dificultar a passagem das pessoa), esse fios presos nos postes eram esticados de um para outro e embaixo dessa cerca eram plantados pés de Macambiras. 

Nesta época do ano (mês de junho), pela manhã cedo, os garotos da rua (inclusive eu) costumávamos sentar neste morro pra se esquentar ao sol. 

Foi que observamos que as pessoas ao passarem ao lado desta lixeira e verem os fatos e as penas brancas e pretas da galinhas, depositadas no local, eles se benziam e passavam rezando. Muitos ainda falava em voz alta: cruz credo. 

Foi que eu mais um dos garotos tivemos uma ideia: pegamos as penas pretas das galinhas e fizemos um quadrado tomado toda a estrada de um lado ao outro, depois enchemos o quadrado com penas brancas. Depois pegamos o restante dos corantes (de cor vermelha) e fizemos uma cruz em ambos os lados deste quadrado. 

O que ocorreu: logo pela manhã, quando as pessoas vinhas do sítio para a cidade e viam este desenho tomando toda a estrada, se benziam, começavam a rezar e pulavam o valado para dentro do sitio, que ficava vizinho a estrada, caminhavam uns trinta metros por dentro deste sítios e depois pulavam o valado de volta pra estrada. Alguns rezavam e diziam: quem será que foi o filho da puta que veio fazer um macumba logo aqui? 

Não precisa dizer que a garotada ( inclusive eu) escondida por detrás do morro se acaba de rir de ver essas atitudes. 

A ação dessas pessoas só foi quebrada quando um carroceiro (tinha o apelido de carboreto) veio e parou de frente a esse desenho. Um dos moradores que estava um pouco distante no outro lado do campo, na rua, gritou: e aí carboreto, vai ter coragem de passar? Ele respondeu firme e forte: isso poder ser feito por macumbeiro, por santo ou pelo o diabo que o carregue. Tenho de ir trabalhar! E passou por cima. Só então as pessoas resolveram passar pela estrada sem ter de precisar pular o valado.. 

O problema é que um dos moradores, que viu a brincadeira, foi e contou pro meu pai. Não precisa dizer que o cinturão comeu solto........ 

Antônio Carlos Vieira
Licenciatura Plena – Geografia
http://carlos-geografia.blogspot.com

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